Existe aquele instante em que todas as 53 bilhões de células em seu corpo, todas elas comunicam de uma vez.

Centro Cultural Japonês do Havaí, Honolulu

9 de abril de 2010, 19 horas

Ramsay Taum (Diretor de Relações Externas e Parcerias Comunitárias da Universidade do Havaí em Manoa e Presidente da Mesa de Sustentabilidade do Havaí) começou a noite recitando uma canção havaiana. Então, ele falou sobre as relações entre o Havaí e a cultura indiana.

Sri Sri Ravi Shankar: Muito obrigado! Mahalo! (uma palavra havaiana que significa “Obrigado”). É bom ouvir a mesma coisa de uma perspectiva diferente. É tão interessante como todas as culturas do mundo possuem aspectos comuns. Já que Ramsay falou sobre a palavra “Eee” (da língua havaiana), do mesmo modo, em sânscrito cada letra representa um elemento especial. Há cinco elementos na natureza: terra, água, fogo, ar e éter. Daí temos a mente, o intelecto e o ego (ou identidade). Depois vem o espírito unificante e que não muda, chamado de maha.

Quando dizemos um ao outro “mahalo”, esse é um passo além do ego e nele achamos unificação. Ma representa isso, que vocês já sabem. A primeira palavra que uma criança aprende a falar é “ma”. Uma criança enxerga além de sua consciência até uma consciência maior. É interessante que haja uma unidade subjacente em todas as culturas do mundo.

A vida é tanto um segredo quanto é sagrada. Em civilizações antigas, tudo o que era sagrado era considerado um segredo. Mas nas atuais civilizações modernas, há vergonha nos segredos. Segredo e vergonha estão associados um ao outro. Em civilizações antigas, a humildade era associada ao orgulho. Hoje, a violência está associada ao orgulho. A agressão está associada ao orgulho. Há um grande contraste.

Então, para sabermos algo a fundo sobre nós mesmos, ou para entendermos algo em nosso íntimo, precisamos estar em um ambiente cordial e informal. Sabe, muitas vezes nós cumprimentamos as pessoas mas nosso cumprimento não carrega as vibrações. É quase como uma comissária de bordo que saúda você com “tenha um bom dia” quando você deixa o avião. Não significa nada. Existe algo que está além das palavras. Existe algo lá em nosso íntimo que nós às vezes usamos para nos comunicar. Nesse instante, todas as 53 bilhões de células em seu corpo, comunicam-se de uma só vez.

Entendem? Quando alguém está se afogando, naquele momento elas estão totalmente vivas; no corpo todo, cada célula está viva porque naquele momento elas querem viver. Há algo em nosso íntimo que, ao ser acionado, nos leva para outra dimensão. Nesse momento, observe a natureza de sua respiração, de sua mente e de seu coração. Se há fogo no prédio, o que acontece? Algo acorda o mecanismo todo. Correto? E do mesmo modo, quando sentimos um profundo amor por algo, pela natureza, pela criação, pelo criador, ficamos maravilhados. Daí, há uma qualidade em nossa consciência.

Quando era bebê, você tinha esta qualidade. Você viveu quase dezesseis ou dezessete horas nesse estado de admiração. É por isso que bebês riem bastante, sorriem bastante. Mas quando envelhecemos ficamos presos em ciclos de memória. Nós aprendemos e ficamos presos, aprendemos mais e ficamos presos de novo. Então, quando você está com seus vinte e poucos anos, não consegue aprender mais nada. Você está num estado distante demais para aprender alguma coisa.

Agora vem a pergunta: é possível nos revertermos para aquele estado de admiração, maravilhamento e aprendizado e ainda assim envelhecer? Tudo o que nos levar nesta direção, será o caminho espiritual. Um modelo espiritual deve mantê-lo entusiasmado, vivo, feliz e fazendo-o viver momento a momento com muita energia.

Uma coisa é saber que estamos conectados, outra, é sentir que estamos conectados. Mas há um perigo em sentir que estamos conectados. Em algum lugar, alguém tem um problema. No mundo, a maioria das pessoas tem problemas. Há poucas pessoas sem problemas. Apenas imagine, você estará em um constante estado de preocupação porque toda vez que alguém se preocupar você irá se preocupar. Você precisaria de conhecimento, do conhecimento de poder ter compaixão e ainda assim não ser afetado. Por exemplo, um médico trata de doentes o tempo todo, mas não fica ele mesmo doente. Um médico não poderia ficar. Pelo menos nesse período em que ele estivesse doente, ele não seria médico. Ele seria paciente. Assim, um médico tem que permanecer médico e não se tornar um paciente.

Até mesmo aqui, a solução está seguindo um caminho espiritual. Certas práticas o deixam isolado, no entanto, ao mesmo tempo, conservam sua sensibilidade. Isto requer treinamento e dedicação. Todos nós temos dez dedos e, embora todos tenham a capacidade, somente poucos conseguem tocar violão. Somente os poucos que aprenderam a tocar o violão, a flauta, o trombone conseguem tocá-los.

A natureza não se revela a nós até que haja certa maturidade em nossos corações. Até que nossa mente esteja totalmente no momento presente, nossa visão sobre o futuro e o passado fica limitada. Quando a mente começa a ficar no momento presente, mais e mais ela ganha a habilidade de procurar pelas nossas impressões grosseiras, agradáveis ou não. Isso nos dá certo nível de serenidade e a natureza revela mais de seus segredos. É algo tão lindo.

Nossa respiração é um fator de ligação para com toda a criação. Respiração em sânscrito equivale a “prana”. Prana não é exatamente a respiração, mas a energia viva conectada com a respiração. Todos nós estamos flutando em um oceano de prana, um oceano de vida. Mas isto muda o tempo todo. A qualidade do prana muda o tempo todo.

Quando nossa respiração pela narina esquerda torna-se dominante, o lado direito do cérebro é mais ativo. Quando nossa respiração pela narina direita torna-se dominante, o lado esquerdo do cérebro é mais ativo. Assim se sua respiração acontece pelo lado esquerdo, você acompanha quaisquer discussões intelectuais que estejam acontecendo. Quando ela muda para a direita e o lado esquerdo do cérebro começa a operar, você apenas ficará sentado ou cantará ou ouvirá música.

Algumas vezes que você chegar num ambiente que estiver tocando música, note que sua respiração mudará. Igualmente, se você for a um local de meditação ou sentar em um lugar em que pessoas meditaram, você perceberá que suas duas narinas funcionarão. Somente quando ambas as narinas funcionam igualmente, a meditação pode acontecer. Então, os povos antigos estudaram muito sobre a respiração.

Ao colocar sua atenção, onde quer que seja, você poderá saber o que está acontecendo lá. Há um bocado de conhecimento nisso. Toda vez que souber mais, você descobrirá que há tanto mais para se saber sobre a vida. É por isso que a vida é um segredo sem fim, algo tão sagrado.

Sri Sri então conduziu a plateia para um ioga sukshma (uma forma sutil de ioga que tem efeitos muito relaxantes) destinado àqueles que estavam cansados após um longo dia no trabalho. Depois da sessão de ioga, ele conduziu a plateia a uma meditação.

P: Como faço para domar o ego?

Sri Sri Ravi Shankar: Pelo amor de Deus, não faça isso. Não interfira nisso. Não faça nada com ele. Se você descobrir que tem um, apenas mantenha-no no bolso. Se você tentar domar o ego, este será o maior de seus egos. O que o ego não tolera é ser ignorado. O antídoto para o ego é ser natural. Seja simples, como uma criança. E se você acha que ele ainda o incomoda, deixe ele agir.

P: Por favor, fale sobre o conceito de “deixar ir”. Como se faz para “deixar ir” fisicamente, mentalmente e emocionalmente?

Sri Sri Ravi Shankar: Apenas respire fundo e não solte. Não deixe ir. Você não consegue, tente de deixar. É inevitável, em algum momento você terá de deixar ir. E como deixamos ir? Cerre os punhos e segure-os. Quanto tempo consegue ficar assim?

P: Por que algumas pessoas são gananciosas e crueis? Podemos mudar eles ou temos que aprender a aceitá-los?

Sri Sri Ravi Shankar: Algumas pessoas desconhecem o quanto são lindas. Por trás de todo acusado, há uma vítima clamando por ajuda. Se você curar a vítima, você cura o acusado. Ninguém nasce violento. Alguém torna-se violento devido à falta de educação apropriada sobre a não-violência.

P: O que há de especial nesta prática de meditação, se comparada às outras?

Sri Sri Ravi Shankar: Ela o torna comum, e funciona apenas em pessoas comuns. Se você acha que é especial, esta meditação não poderá funcionar. E é isto que há de especial nela.

P: Por favor, fale sobre o amor. E como a disciplina pode ser mais bem trabalhada?

Sri Sri Ravi Shankar: Novamente, você não pode forçar-se a amar algo ou a não amar algo. Apenas relaxe e seja você mesmo.

A disciplina pode ser necessária em três situações. Você não precisa de disciplina quando há amor. Quando você ama algo, você não precisa disciplinar-se para fazer isso, precisa? A segunda situação é quando há medo. Se você teme que vai ter um ataque de nervos, esse medo vai lhe dizer o que tem de fazer. A terceira é a cobiça. Se alguém lhe oferece um milhão de dólares para fazer algo por uma semana, você não deixaria de fazer aquilo nem por um dia. Assim, o amor, o medo e a cobiça o mantém em disciplina.

P: Quando se alcança níveis mais altos de consciência, qual é o efeito no corpo e como muda o uso deste corpo?

Sri Sri Ravi Shankar: Existe este provérbio, “você corta lenha e carrega água antes da iluminação, e você corta lenha e carrega água depois da iluminação”. Nossa consciência tem impacto em nosso corpo, e nosso corpo tem impacto em nossa consciência. É uma relação muito estreita.

P: O que é preciso para realizar seu próprio destino?

Sri Sri Ravi Shankar: Fé, da fé que você pode realizar seu destino.

P: Você acredita que nossos líderes possam ter soluções de paz e de amor para os problemas de nosso mundo, ou eles estariam sendo motivados economicamente por um seleto grupo de pessoas?

Sri Sri Ravi Shankar: Acho que você deu a resposta em sua pergunta. Tanto a pergunta como a resposta estão juntas. Eu acho que há muitos bons líderes mundiais que querem fazer algo por nossa sociedade, mas que se sentem constrangidos. Eles sentem-se impotentes. Muitas vezes eles não podem fazer o que querem porque estão presos em um sistema. O sistema não os deixa fazer o que querem. E há outros, cujo cargo ou situações partidárias importam mais para eles que o bem-estar das pessoas. Seus olhos estão voltados mais para as próximas eleições, para as necessidades de seu partido político, para sua agenda política do que para as necessidades maiores do povo, a longo prazo. Mesmo quando pensam nas questões mais importantes, são incapazes de agir, pois suas agendas políticas estão na frente deles. Um governante não pode se tornar um reformador. Governantes não trabalham com reformas. E aqueles que trabalham com reformas não podem se tornar governantes. Eles têm papéis diferentes. Governantes e reformistas deviam trabalhar juntos.

P: Você poderia falar sobre o casamento e nossa vínculo com ele?

Sri Sri Ravi Shankar: Não sou qualificado para falar sobre casamento; eu não tenho experiência nisso. É uma instituição importante que lhe ensina a aceitar os outros e a seguir em frente com sua vida, a cuidar e compartilhar com outro e a ser cuidado e compartilhado pelo outro. Posso lhe dar algumas dicas.

Ao final da conversa, Sri Sri convidou a todos para visitarem a India.

Mahalo!

“Aquilo que você não pode expressar é Amor.
Aquilo que você não pode rejeitar / renunciar é Beleza.
Aquilo que você não pode evitar é a Verdade. “

~ Sri Sri

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